"Darias a vida a um morto. Como queres tu que eu não te ame? Tens um poder de atracção capaz de fazer erguer as pedras ao som da tua voz. As tuas cartas revolvem-me até ás entranhas. Não tenhas medo que eu te esqueça! Tu bem sabes que se fica sempre preso a criaturas como tu.
Essas criaturas comovidas, comovedoras, profundas. Não perdoo a mim próprio, era capaz mesmo de me supliciar, por te ter feito sofrer. Como podes censurar-me esta minha frase "Preferia nunca ter-te conhecido!". Não há frase mais terna.Pergunta a ti mesma se haveria muitos homens capazes dete escreverem a carta que tanto te magoou. Não penses mais nela, amor. Oh, como gostaria de escrever obras-primas para te agradar, como gostaria que o meu estilo te fizesse estremecer, eu, que não sonho com a glória. Achas-me belo. Gostaria de ser belo, gostaria de ter os cabelos anelados, negros, a descerem-me pela nuca até aos ombros de marfim, como os adolescentes gregos. Gostaria de ser forte, puro, mas quando olho para o espelho e penso que me amas acho-me de uma vulgaridade revoltante. Tenho as mãos perras, os joelhos canhestros e o peito acanhado. Se me tens conhecido há dez anos...Então sim, tinha eu ainda alguma frescura. Exalava vida e amor, mas agora sinto que a maturidade anuncia a decadência. Tenho saudades do passado. Afigura-se-me que o devia ter preservado numa vaga esperança de to vir a oferecer um dia. Mas nunca me passou pela cabeça que pudesse ser amado. E ainda agora mesmo isso me parece coisa do outro mundo.
-O amor, para mim, ter eu direito ao amor?! Que estranho!
Carta de Gustave Flaubert para Louise Colet
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
TEXTO DE LOBO ANTUNES
Se vivemos tão mal, porque carga de água o medo de morrer é tão grande? Quantas pessoas felizes conheço?
Porque carga de água vivemos tão mal? E, se vivemos tão mal, porque carga de água o medo de morrer é tão grande? Quantas pessoas felizes conheço? Porque será que para quase toda a gente o amor é uma questão de prazeres breves e localizados, como dizia, eu que detesto citações, a grande escritora Colette? Ontem, no restaurante onde jantei, uma mesa grande cheia de mulheres e homens: falavam, comiam, riam-se e estavam todos defuntos. Vontade de perguntar-lhes
– Sabem que faleceram?
Quando digo que falavam refiro-me a que falavam de outros defuntos que não estavam ali, criticavam cadáveres enquanto se decompunham. O mundo dos mortos está cheio de ressentimento e inveja, de crueldade desnecessária. Para quê? Tanta agitação, despeito, rivalidades, emoções minúsculas. No meio disto tudo sou um homem sentado a escrever, com os meus fantasmas em torno, vozes que me segredam, me gritam. E tenho pena das pessoas, acho que o meu sentimento mais fundo é ter pena das pessoas. No bairro onde moro e que não trocava por nenhum outro
(não é um bairro, é uma ilha em Lisboa)
fui fazendo amizade com criaturas extraordinárias, sem abrigo, doentes mentais, viúvos solitários, pequenos dealers, pequenos comerciantes, um grupo que se dedica a actividades que os jornais chamam marginais. Posso deixar as janelas e a porta abertas que ninguém toca em nada: existe um código de honra implacável, um curioso sentido da amizade e do respeito, uma hierarquia feroz. Violentos e sentimentalões, demorei tempo a entender as suas regras morais, que nada têm a ver com a moral corrente mas que são minuciosamente seguidas: já sentira isso de fora, na época em que frequentei cadeias, sinto agora por dentro. E aceito. Se for preciso defendo-os, do mesmo modo que me protegem a mim. E a pouco e pouco vou fazendo amizade com outros habitantes locais: mulheres de aluguer, travestis, os protectores de umas e outros, um carteirista de mais de setenta e cinco anos que recusa reformar-se, já a arrastar a perninha e todavia de olho vivo e palavra convincente. Antes de me mentir previne
– Eu a si não lhe minto
para que fique em acta que está a aldrabar. A nossa cumplicidade começou ao pifar-me cinquenta euros: nunca mos devolveu. Suponho que os considera a propina que lhe devia pelas aulas futuras. Se calhar virem à baila os cinquenta euros explica logo
– Isso foi antes
e considera o assunto resolvido, ou seja consideramos ambos o assunto resolvido. Aliás já me pagou mais que a nota em ice-teas e torradas. Avanço com o dinheiro e ele de mão no ar
– Está pago, não me ofenda
o fatinho coçado, a indignar-se. As mulheres de aluguer tão miseráveis quase, tão baratas: vinte euros é uma pechincha. Quanto aos travestis ainda não se descoseram comigo, cada qual com a sua zona de patrulhamento mesmo em dezembro,
à chuva, vestidos de Barbarella. Os clientes encostam o automóvel, os protectores
(– O meu marido)
vigiam o que é seu, paternais e duros, de bofetada eficaz. Na semana passada
– Não me batas mais, Aires
à segunda dose de correctivo, aplicada sem fúria, pedagógica. Nos intervalos da direcção do negócio jogam bilhar, arrumam os automóveis caros em cima do passeio, informam-se
– Como vamos de numerário, pequena?
eu que ignorava o seu conhecimento da palavra. Cumprimentam-me enquanto o travesti se justifica
– Desculpe não lhe ter dado as boas noites, senhor doutor
e regressam à sua actividade docente. Se mandassem nas escolas acabava a rebaldaria
– Se eu mandasse nas escolas acabava a rebaldaria
e não se alcança o motivo dos partidos não colocarem estes educadores não apenas à frente das escolas mas das diversas repartições do Estado. É impossível não lhes admirar a autoridade natural e o dom disciplinador. Um governo dirigido por rapazes de pulso entrava na linha num rufo e o País enchia-se de numerário, consideração pelo mando e automóveis caros em todos os passeios. Aposto que até a minha mãe aplicava umas carambolas com gosto em compartimentos onde o excesso de fumo torna as garrafas de cerveja invisíveis, percebendo-se vagamente a linha da espuma. Estou aqui a imaginá-la de cigarro na boca a dar giz ao taco, interrogando-me com bons modos
– Como vamos de numerário, pequeno?
pronta a um estalo rectificativo. Ou a jantar com os carteiristas nos sítios onde janto e em que o peixe é peixinho, o bife bifinho, as batatas batatinhas, mas a conta não continha, conta. E a bola na televisão, empoleirada numa prateleira junto ao tecto. A minha mãe beberia um uísquezinho em copo de balão no fim, servido acima do traço por ser para ela
– Acima do traço por ser para si
e a narrar os seus problemas existenciais às raparigas de vinte euros. E mais dia menos dia assaltava um bancozito ou preparava a furgoneta para uma caixa multibanco. Ao passar por ela justificava-se
– Desculpe não lhe ter dado as boas noites, senhor doutor
e continuava, debruçada para um capot, a dar potência às bielas, eficiente e manchada de óleo, tirando chaves inglesas da carteira onde descansavam na companhia de cartões de crédito falsos e de bilhetes de identidade artesanais. Desde criança que sonho ser filho de Calamity Jane.
Porque carga de água vivemos tão mal? E, se vivemos tão mal, porque carga de água o medo de morrer é tão grande? Quantas pessoas felizes conheço? Porque será que para quase toda a gente o amor é uma questão de prazeres breves e localizados, como dizia, eu que detesto citações, a grande escritora Colette? Ontem, no restaurante onde jantei, uma mesa grande cheia de mulheres e homens: falavam, comiam, riam-se e estavam todos defuntos. Vontade de perguntar-lhes
– Sabem que faleceram?
Quando digo que falavam refiro-me a que falavam de outros defuntos que não estavam ali, criticavam cadáveres enquanto se decompunham. O mundo dos mortos está cheio de ressentimento e inveja, de crueldade desnecessária. Para quê? Tanta agitação, despeito, rivalidades, emoções minúsculas. No meio disto tudo sou um homem sentado a escrever, com os meus fantasmas em torno, vozes que me segredam, me gritam. E tenho pena das pessoas, acho que o meu sentimento mais fundo é ter pena das pessoas. No bairro onde moro e que não trocava por nenhum outro
(não é um bairro, é uma ilha em Lisboa)
fui fazendo amizade com criaturas extraordinárias, sem abrigo, doentes mentais, viúvos solitários, pequenos dealers, pequenos comerciantes, um grupo que se dedica a actividades que os jornais chamam marginais. Posso deixar as janelas e a porta abertas que ninguém toca em nada: existe um código de honra implacável, um curioso sentido da amizade e do respeito, uma hierarquia feroz. Violentos e sentimentalões, demorei tempo a entender as suas regras morais, que nada têm a ver com a moral corrente mas que são minuciosamente seguidas: já sentira isso de fora, na época em que frequentei cadeias, sinto agora por dentro. E aceito. Se for preciso defendo-os, do mesmo modo que me protegem a mim. E a pouco e pouco vou fazendo amizade com outros habitantes locais: mulheres de aluguer, travestis, os protectores de umas e outros, um carteirista de mais de setenta e cinco anos que recusa reformar-se, já a arrastar a perninha e todavia de olho vivo e palavra convincente. Antes de me mentir previne
– Eu a si não lhe minto
para que fique em acta que está a aldrabar. A nossa cumplicidade começou ao pifar-me cinquenta euros: nunca mos devolveu. Suponho que os considera a propina que lhe devia pelas aulas futuras. Se calhar virem à baila os cinquenta euros explica logo
– Isso foi antes
e considera o assunto resolvido, ou seja consideramos ambos o assunto resolvido. Aliás já me pagou mais que a nota em ice-teas e torradas. Avanço com o dinheiro e ele de mão no ar
– Está pago, não me ofenda
o fatinho coçado, a indignar-se. As mulheres de aluguer tão miseráveis quase, tão baratas: vinte euros é uma pechincha. Quanto aos travestis ainda não se descoseram comigo, cada qual com a sua zona de patrulhamento mesmo em dezembro,
à chuva, vestidos de Barbarella. Os clientes encostam o automóvel, os protectores
(– O meu marido)
vigiam o que é seu, paternais e duros, de bofetada eficaz. Na semana passada
– Não me batas mais, Aires
à segunda dose de correctivo, aplicada sem fúria, pedagógica. Nos intervalos da direcção do negócio jogam bilhar, arrumam os automóveis caros em cima do passeio, informam-se
– Como vamos de numerário, pequena?
eu que ignorava o seu conhecimento da palavra. Cumprimentam-me enquanto o travesti se justifica
– Desculpe não lhe ter dado as boas noites, senhor doutor
e regressam à sua actividade docente. Se mandassem nas escolas acabava a rebaldaria
– Se eu mandasse nas escolas acabava a rebaldaria
e não se alcança o motivo dos partidos não colocarem estes educadores não apenas à frente das escolas mas das diversas repartições do Estado. É impossível não lhes admirar a autoridade natural e o dom disciplinador. Um governo dirigido por rapazes de pulso entrava na linha num rufo e o País enchia-se de numerário, consideração pelo mando e automóveis caros em todos os passeios. Aposto que até a minha mãe aplicava umas carambolas com gosto em compartimentos onde o excesso de fumo torna as garrafas de cerveja invisíveis, percebendo-se vagamente a linha da espuma. Estou aqui a imaginá-la de cigarro na boca a dar giz ao taco, interrogando-me com bons modos
– Como vamos de numerário, pequeno?
pronta a um estalo rectificativo. Ou a jantar com os carteiristas nos sítios onde janto e em que o peixe é peixinho, o bife bifinho, as batatas batatinhas, mas a conta não continha, conta. E a bola na televisão, empoleirada numa prateleira junto ao tecto. A minha mãe beberia um uísquezinho em copo de balão no fim, servido acima do traço por ser para ela
– Acima do traço por ser para si
e a narrar os seus problemas existenciais às raparigas de vinte euros. E mais dia menos dia assaltava um bancozito ou preparava a furgoneta para uma caixa multibanco. Ao passar por ela justificava-se
– Desculpe não lhe ter dado as boas noites, senhor doutor
e continuava, debruçada para um capot, a dar potência às bielas, eficiente e manchada de óleo, tirando chaves inglesas da carteira onde descansavam na companhia de cartões de crédito falsos e de bilhetes de identidade artesanais. Desde criança que sonho ser filho de Calamity Jane.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
CARTA A TI
Interessante o nosso caso!
Nosso amor parece ter encontrado a pitada certa
O tempero no ponto exacto,
Pois não é doce demais, tão pouco salgado...
Ele é algo difícil de se explicar.
É como uma rosa que teima nascer entre pedras,
Desafiando o calor intenso e a falta d'água
Mas, depois de algum tempo, raízes encontraram solo fértil
Então, na calada da noite, cresceu e tornou-se uma linda rosa...
Uma rosa que é rosa à noite e é azul de dia.
Um amor que cresceu sem se importar onde ia chegar
E chegou onde está, mais seguro, mais tranquilo
mais maduro.
Um amor que une uma peixinha e um lobo
Um lobo que aprendeu a amar o mar
para poder chegar perto de sua amada!
Uma peixinha que, de teimosa, ensinou um lobo a amá-la
Estranhos os caminhos do amor!
Maravilhosos os efeitos deste amor dentro de nós!
Desejo-nos muito tempo para o dividirmos,
Muito amor para gastar,
Muitos sorrisos e muitas gargalhadas,
Porque a vida, apesar dos seus contratempos, é linda!
Muito mais linda contigo junto de mim!
Com amor e carinho
Nosso amor parece ter encontrado a pitada certa
O tempero no ponto exacto,
Pois não é doce demais, tão pouco salgado...
Ele é algo difícil de se explicar.
É como uma rosa que teima nascer entre pedras,
Desafiando o calor intenso e a falta d'água
Mas, depois de algum tempo, raízes encontraram solo fértil
Então, na calada da noite, cresceu e tornou-se uma linda rosa...
Uma rosa que é rosa à noite e é azul de dia.
Um amor que cresceu sem se importar onde ia chegar
E chegou onde está, mais seguro, mais tranquilo
mais maduro.
Um amor que une uma peixinha e um lobo
Um lobo que aprendeu a amar o mar
para poder chegar perto de sua amada!
Uma peixinha que, de teimosa, ensinou um lobo a amá-la
Estranhos os caminhos do amor!
Maravilhosos os efeitos deste amor dentro de nós!
Desejo-nos muito tempo para o dividirmos,
Muito amor para gastar,
Muitos sorrisos e muitas gargalhadas,
Porque a vida, apesar dos seus contratempos, é linda!
Muito mais linda contigo junto de mim!
Com amor e carinho
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
ESCRAVO DAS RECORDAÇÕES
Sinto vontade de gritar, como se eu pudesse, sem os ouvidos ferir.
Vontade de partir, como, se eu soubesse, se tivesse sequer onde ir.
De ir, de sair, as asas domando as forças do vento e pronto!
Pronto a enfrentar o infinito, tão distante, tão próximo, ao teu encontro!
As ondas do tempo, envolventes, a varrer, desta vida, as areias,
apagando marcas frescas, passadas, da nossa história recente,
ora delicadas vagas, serenas, sincopadas ao bater destas asas,
ora altaneiras, borrascosas, num turbilhão a confundir-nos a mente.
Como explicar a força, que nos anima, nos faz seguir em frente,
quando, na verdade, temos consciência do ontem, presente,
em visões, reais como o zumbir do vento nos nossos ouvidos.
Escravos das recordações, peças pregadas em nossos sentidos,
a reviver, sempre e sempre, calafrios, tão reais quanto o agora,
sentimentos tão ciosamente guardados, ecos saudosos de outrora.
Vontade de partir, como, se eu soubesse, se tivesse sequer onde ir.
De ir, de sair, as asas domando as forças do vento e pronto!
Pronto a enfrentar o infinito, tão distante, tão próximo, ao teu encontro!
As ondas do tempo, envolventes, a varrer, desta vida, as areias,
apagando marcas frescas, passadas, da nossa história recente,
ora delicadas vagas, serenas, sincopadas ao bater destas asas,
ora altaneiras, borrascosas, num turbilhão a confundir-nos a mente.
Como explicar a força, que nos anima, nos faz seguir em frente,
quando, na verdade, temos consciência do ontem, presente,
em visões, reais como o zumbir do vento nos nossos ouvidos.
Escravos das recordações, peças pregadas em nossos sentidos,
a reviver, sempre e sempre, calafrios, tão reais quanto o agora,
sentimentos tão ciosamente guardados, ecos saudosos de outrora.
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