"Darias a vida a um morto. Como queres tu que eu não te ame? Tens um poder de atracção capaz de fazer erguer as pedras ao som da tua voz. As tuas cartas revolvem-me até ás entranhas. Não tenhas medo que eu te esqueça! Tu bem sabes que se fica sempre preso a criaturas como tu.
Essas criaturas comovidas, comovedoras, profundas. Não perdoo a mim próprio, era capaz mesmo de me supliciar, por te ter feito sofrer. Como podes censurar-me esta minha frase "Preferia nunca ter-te conhecido!". Não há frase mais terna.Pergunta a ti mesma se haveria muitos homens capazes dete escreverem a carta que tanto te magoou. Não penses mais nela, amor. Oh, como gostaria de escrever obras-primas para te agradar, como gostaria que o meu estilo te fizesse estremecer, eu, que não sonho com a glória. Achas-me belo. Gostaria de ser belo, gostaria de ter os cabelos anelados, negros, a descerem-me pela nuca até aos ombros de marfim, como os adolescentes gregos. Gostaria de ser forte, puro, mas quando olho para o espelho e penso que me amas acho-me de uma vulgaridade revoltante. Tenho as mãos perras, os joelhos canhestros e o peito acanhado. Se me tens conhecido há dez anos...Então sim, tinha eu ainda alguma frescura. Exalava vida e amor, mas agora sinto que a maturidade anuncia a decadência. Tenho saudades do passado. Afigura-se-me que o devia ter preservado numa vaga esperança de to vir a oferecer um dia. Mas nunca me passou pela cabeça que pudesse ser amado. E ainda agora mesmo isso me parece coisa do outro mundo.
-O amor, para mim, ter eu direito ao amor?! Que estranho!
Carta de Gustave Flaubert para Louise Colet
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