terça-feira, 27 de janeiro de 2009

REGRESSO AO PASSADO

A eliminação do Benfica da Taça de Portugal perante o sensacional e, desta feita, afortunado Leixões, é susceptível de múltiplas interpretações, umas tendentes a justificar o desaire «encarnado», outras apontadas para a exaltação do êxito matosinhense. Prefiro outros caminhos, dados a conhecer ao longo da hora e meia do «Mar».Deixados em sossego os méritos e deméritos de ambos e as circunstâncias que decidiram a eliminatória, o jogo mostrou-nos um Benfica descarada e desenraízadamente modernaço, utilizando até à inconsciência o conceito de globalização que nos impingem em cada momento e em todos os momentos. …Uma globalização que, felizmente, destruiu fronteiras e derrubou preconceitos, mas que não me impede de alguma nostalgia em relação a um passado glorioso do «Glorioso» e, sobretudo,ao respeito pelos operários que construíram esses tempos.
Durante décadas o Benfica manteve as suas portas fechadas à entrada de jogadores estrangeiros, sem que esses tempos de resistência o tivessem impedido das maiores conquistas da sua história – década de 60 –, com o aproveitamento exaustivo dos fornecimentos vindos de Moçambique e Angola, então pedaços de Portugal. Só por má fé se pode hoje dizer que Eusébio, Coluna, Águas, Costa Pereira ou Santana não eram portugueses.
Décadas volvidas, o Benfica vergou-se e deixou que os brasileiros Lóio, Jorge Gomes (ex-Boavista) e César desembarcassem na velha Luz, perdendo, assim, a condição de única equipa portuguesa sem estrangeiros. Já então os ventos da modernidade fustigaram o Benfica.
De repente, quase sem nos darmos conta, chegamos ao presente e o Benfica vive hoje ao sabor dos novos tempos, aproveitando as leis do mercado, desobrigado de sentimentos românticos, procurando, apenas, aquilo que lhe é mais vantajoso ou conveniente. Inatacável.Foi essa desobrigação de romantismos que levou o Benfica, no jogo com o Leixões, ao seguinte:

- a apresentar apenas um português (Ruben im) no «onze» inicial;
- a ficar sem UM ÚNICO português em campo quando Ruben im cedeu o lugar
a Balboa (64 minutos), só mais tarde surgindo Nuno Gomes.

Do ponto de vista ético-competitivo, nada a apontar às opções de Quique Flores que, seguramente, funciona mentalmente em obediência aos interesses da equipa, sem se preocupar com a nacionalidade dos jogadores que utiliza. Na Luz, o verbo ganhar conjugar-se-á, por certo, sem esse tipo de pruridos. Dir-me-ão que outros grandes clubes europeus (Arsenal, por exemplo) não revelam a mínima relutância em relação a este tipo de enxurrada de jogadores estrangeiros. Sendo tão verdade quanto legal o procedimento, já tenho sérias dúvidas se a velha mística benfiquista pode exercitar-se apenas com jogadores estrangeiros em campo. Dir-me-ão que vão longe os tempos do « à camisola», que hoje tudo se esgota no profissionalismo dos jogadores. Talvez seja verdade, talvez seja por isso que hoje há menos
jogadores «à Benfica», talvez seja por isso que o clube ganha menos vezes. Entre tantas dúvidas, apenas a minha certeza: julgava impossível ver uma equipa do Benfica sem portugueses em campo. Enganei-me.

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